Ensina a sabedoria política que reunião anunciada com a presença de mais de 10 pessoas vira seminário ou workshop de luxo. Desse tipo de conversa aberta e sem pauta, o máximo que pode sair é uma nota oficial dizendo que foi marcada uma nova reunião ou que a conversa foi apenas para ouvir sugestões.
Por isso, o que se pode deduzir dessa reunião marcada às pressas, segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, é que o presidente, depois de ler nos jornais uma tempestade de notícias, entrevistas e opiniões cobrando um ajuste fiscal, decidiu convocar os velhos amigos da esquerda para saber o que eles pensam.
Acalmar o mercado
E o que acham dessa pressão na mídia de que precisa fazer alguma coisa para acalmar o mercado que quase implora uma palavra sua nessa direção. Talvez para colher sugestões para o que vai dizer nesse domingo no pronunciamento que convocou em cadeia nacional.
Lula não prometeu fazer ajuste de contas na campanha. E por isso mesmo está livre de cumprir compromissos assumidos nessa linha. Mas sabe que, sem dar ao menos um sinal de que não pretende radicalizar na partida, essa tempestade de opiniões vai prosseguir “esquentando” o seu juízo.
Especulações
O problema é que a lista de nomes que convidou abre uma avenida de especulações sobre o que os participantes poderiam contribuir no novo ministério. Depois de início, já abre uma outra lista de insatisfeitos por não terem sido convidados a colaborar na formação da opinião do presidente sobre como iniciar o seu quarto mandato.
Mas a verdade é que Lula enfrenta (com essa pressão) uma situação que jamais precisou administrar nos seus governos anteriores. Em 2003, quando se elegeu pela primeira vez, Henrique Meirelles no Banco Central tinha um prestígio tão grande que tinha mais respeito do que o ministro da Fazenda, Antônio Palocci. O presidente não precisou justificar nada com José Dirceu na Casa Civil, assim como ninguém questionava a indicação de Márcio Thomaz Bastos na Justiça ou Gilberto Gil na Cultura.
Pressão do Centrão
Mas ele viu que ao voltar para o Planalto, ele sentiu a pressão do Centrão, do PT, forçando a barra para ter o núcleo duro e financeiro do terceiro governo que o obrigou a instalar os aliados da campanha na periferia do governo. E a sugestão de nomes “meia-boca” que não aumentavam em nada a confiança do seu governo. Quem não lembra do parto que foi indicar Marina Silva para o Meio Ambiente.
Davi Alcolumbre
E, para completar, Lula precisou conviver com o Davi Alcolumbre, que tem absoluta certeza de que é uma espécie de ministro sem pasta do governo e pode indicar quantos ministros achar necessários de qualquer presidente.
Por isso, agora, quando o estouro no caixa de 2026, que Dario Durigan prometia entregar com superávit até o começo da campanha, criou uma situação absurda de compromissos que avançaram sobre 2027, Lula percebeu que, antes da primeira escolha, tem que se preparar para a pressão dos “sem emprego”, dos “sem deputados” no Congresso, dos “sem voto” e dos presidentes partidos que já mapearam o governo.
Sem nomes fortes
O problema é que Lula não tem – como nos governos anteriores – um nome incontestável para o Ministério da Fazenda. O caso de Rafael Fonteles é um bom exemplo. O PT quer vê-lo pelas costas lá no Piauí. Assim como se puder, quer que Camilo Santana “sente” praça no Senado.
Ou alguém acha que, depois daquela campanha mequetrefe do primeiro turno e da assunção da dupla mais o senador eleito Rui Costa, os dirigentes do PT ficaram satisfeitos com a ocupação da campanha. Se pudesse, o PT nomearia os 40 ministros e pronto.
Nomes fracos
Mas Lula também sabe que o quarto governo será muito mais difícil e complicado do que os outros três. Nem mesmo com o terceiro, quando conseguiu aprovar uma PEC antes de tomar posse e arrancar um crédito de R$200 bilhões para começar a governar.
Talvez por isso o presidente tenha recorrido ao velho método de consultas e audiências sem se comprometer com nada. O que justifica a presença de nomes fora do governo, como Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda de 2006 a 2016, e Luciano Coutinho, ex-presidente do BNDES de 2007 a 2016, que certamente não vão dizer a Lula que precisa ajustar as contas. Assim como Eduardo Moreira e Laura Carvalho.
Chuva de ideias
E como conversa sem pauta sempre tem a possibilidade de evoluir para uma boa idéia quem sabe que o grupo não propõe algo novo. Vai ver que do brainstorming desta quinta-feira não sai uma sugestão consistente para o presidente começar a se livrar da pressão dos economistas e analistas de mercado cada vez mais irritados com o silêncio de Lula.
Fonte: JC
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