Crédito, Reuters

  • Author, Daniel Gallas
  • Role, Enviado da BBC News Brasil a Bruxelas

O Brasil se prepara para fazer, nos próximos meses, uma espécie de “ofensiva ambiental” na diplomacia internacional que deve culminar com a realização da conferência climática da ONU nos Emirados Árabes, a COP 28, no final do ano.

O governo brasileiro quer assumir protagonismo nas discussões ambientais — e quer usar sua influência para exigir contrapartidas financeiras internacionais.

Em 8 e 9 de agosto, o Brasil vai realizar uma cúpula de países da região amazônica em Belém (PA) — cujo objetivo é formular uma posição conjunta para apresentar na COP 28.

A França participará do encontro por possuir floresta amazônica na Guiana Francesa. República do Congo, República Democrática do Congo e Indonésia foram convidados por também possuírem grandes florestas tropicais.

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Legenda da foto,

Lula e Emmanuel Macron durante reunião em Bruxelas

Soberania e moral

Um dos pontos principais da posição brasileira é reafirmar a soberania do Brasil e dos demais países amazônicos — ou seja, que as decisões sobre a floresta sejam tomadas livremente pelos governos locais, sem precisarem se submeter a pressões internacionais.

Um dos pontos que Lula quer deixar claro para a comunidade internacional é que o Brasil não aceita que a Amazônia seja tratada como um “santuário”, ou seja, que não haja nenhum tipo de atividade econômica e que a floresta seja tratada como se fosse uma grande reserva ambiental.

Lula ressaltou que a Amazônia é uma região com mais de 50 milhões de pessoas — e mais de 20 milhões de brasileiros — e que a floresta é vital para a vida de indígenas, ribeirinhos, extrativistas e estudiosos.

“É importante que as pessoas levem a sério que a Amazônia é um território soberano do Brasil, no caso dos 4 milhões de quilômetros quadrados que o Brasil tem responsabilidade”, disse Lula.

“Mas o Brasil não quer transformar Amazônia no santuário da humanidade. Nós queremos transformar num centro de desenvolvimento, queremos compartilhar a exploração científica com o mundo que quer participar. Porque nós achamos que é possível extrair do ecossistema da Amazônia e da riqueza da biodiversidade.”

Isso não significa incentivar atividades como desmatamento e agropecuária, segundo o discurso do presidente.

“No Brasil, está ficando cada vez mais claro que não se precisa derrubar uma única árvore para plantar mais soja.”

Crédito, RICARDO STUCKERT/PR

Legenda da foto,

Lula falou com jornalistas em Bruxelas, na Bélgica, nesta quarta-feira (19/7)

Lula também cobra um compromisso que ele aponta ter sido assumido por potências internacionais em 2009, de US$ 100 bilhões para ajudar na preservação da floresta. Em Bruxelas, Lula fez repetidas referências a essa promessa e disse que o assunto voltará à mesa na cúpula de Belém e na COP.

O presidente também tentou retomar doações de países europeus ao Fundo da Amazônia — que foram interrompidas durante o governo de Jair Bolsonaro. Mas ele saiu da Europa sem conseguir um compromisso da Dinamarca — que apenas prometeu que tem a “intenção” de contribuir.

Lula defende que o Brasil tem dois argumentos que dão autoridade moral ao país na questão ambiental.

Primeiro, é o fato de o governo assumir de forma unilateral e voluntária o compromisso de acabar com o desmatamento da Amazônia até 2030. Em segundo lugar, ele argumenta que o Brasil tem uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta.

“O Brasil é um país que tem um potencial excepcional, nós temos 87% da nossa energia elétrica renovável, contra o mundo, que só tem 28%. Nós temos, de toda a matriz energética envolvendo combustível, 50% totalmente renovável contra 15% do resto do mundo”, disse o presidente, acrescentando que “pouca gente tem autoridade moral para falar em transição ecológica”.

O presidente também defendeu que proteção ao meio ambiente e mudanças climáticas sejam incluídos como disciplinas no currículo escolar, para que as novas gerações sejam conscientizadas desde cedo.