Velocidade: Estudo da USP constata que reduzir velocidade melhora a circulação no trânsito e salva vidas

Velocidade: Estudo da USP constata que reduzir velocidade melhora a circulação no trânsito e salva vidas

Dirigir acima do limite de velocidade para chegar mais cedo ao destino é uma aposta que quase nunca compensa, embora praticada com frequência por muitos condutores. É o que aponta a pesquisa “Velocidade em áreas urbanas e segurança viária: evidências sobre comportamentos, percepções e atitudes”, desenvolvida pela Escola Politécnica (Poli) da USP, a Fundación Mapfre, a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e a Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran).

Divulgado ainda em setembro, o estudo reuniu dados de cidades brasileiras e estrangeiras para mostrar que reduzir a velocidade ajuda a manter o tráfego fluindo e, ao mesmo tempo, diminui a gravidade e o número de sinistros de trânsito – o que mais importa porque salva vidas e evita ferimentos e mutilações.
Os pesquisadores combinaram revisão bibliográfica, modelos da psicologia comportamental e simulações urbanas com apoio de inteligência artificial, além de ouvir 1.540 condutores de diferentes regiões do País. O objetivo foi oferecer diagnósticos e evidências técnicas para orientar políticas públicas, campanhas educativas e intervenções de engenharia de tráfego.

GANHO DE TEMPO É PEQUENO E DESAPARECE NO SEMÁFORO

O principal argumento do estudo é que a pressa raramente se paga. Na revisão de dados de tráfego de Curitiba (PR), circular acima do limite gerou redução média de apenas 7,81 segundos por quilômetro, o que equivale a algo entre 46 e 55 segundos em um percurso completo. Em Fortaleza, o caminho inverso levou à mesma conclusão: ao reduzir o limite máximo de 60 km/h para 50 km/h, o acréscimo no tempo de viagem foi de 6,08 segundos por quilômetro rodado, ou 4,72% em média.

Dirigir acima do limite de velocidade para chegar mais cedo ao destino é uma aposta que quase nunca compensa, embora praticada com frequência por muitos condutores – FELIPE RIBEIRO / ACERVO JC IMAGEM

Esse ganho minúsculo, aponta o estudo, costuma ser anulado pela sincronização dos semáforos e pelo tráfego geral das vias. O veículo que corre chega ao sinal fechado ou ao cruzamento seguinte com maior velocidade residual, o que aumenta a letalidade em caso de colisão, além de antecipar o desgaste dos freios e elevar o consumo de combustível, segundo o material divulgado pela USP.

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A redução de limites também aparece associada a um tráfego mais homogêneo. Em uma simulação urbana feita em Antuérpia, na Bélgica, a queda de 50 km/h para 30 km/h em zonas residenciais reduziu os picos de aceleração, gerou uma distribuição mais compacta de veículos e maior fluidez, além de cortar em 26,7% as emissões de gases poluentes, como CO2 e NOx.

Análises do custo-benefício realizadas em Atenas e em São Paulo, também citadas no estudo, indicam que os ganhos sociais com vidas preservadas e menos sinistros superam com folga os pequenos custos de tempo de deslocamento.

MENOS VELOCIDADES, MENOS MORTES. PRINCIPALMENTE DE PEDESTRES

Infográfico: Estudo da USP constata que reduzir velocidade melhora a circulação no trânsito e salva vidas – ARTE

O que está em jogo vai além dos minutos no relógio. Segundo Cassiano Isler, coordenador do levantamento e professor do Departamento de Engenharia de Transportes da Poli, só em 2025 o Estado de São Paulo perdeu 6.134 vidas em sinistros de trânsito. “A velocidade excessiva é o fator que mais determina a gravidade e a recorrência dos sinistros de trânsito e, de acordo com dados do Banco Mundial citados no relatório, esses sinistros fazem com que o Brasil perca cerca de US$ 61 bilhões por ano, o que equivale a 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional”, explicou.

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Para quem anda a pé, a diferença é ainda mais dramática: de acordo com a USP, ao passar de 48 km/h para 32 km/h, a probabilidade de morte em um atropelamento cai de 50% para 10%.

Os exemplos reunidos pelo relatório reforçam a relação. Em Seattle, nos Estados Unidos, a redução dos limites levou a uma queda de 19% nas colisões com mortes ou vítimas graves; de 23% nos sinistros com pedestres e de 16% nos sinistros associados ao excesso de velocidade. Em Edmonton, no Canadá, o limite de 40 km/h em vias residenciais resultou em redução de 25,1% nas colisões e de 31% nas mortes.

No Brasil, a diminuição dos limites nas vias arteriais, que conectam regiões da cidade, e nas marginais de São Paulo reduziu os sinistros entre 16,7% e 35,3%, com menos ocorrências e mortes de motociclistas e pedestres. Em Santiago, no Chile, a passagem de 60 km/h para 50 km/h na velocidade urbana diminuiu a gravidade das ocorrências, com média de 4,26 dias a menos de licença médica por acidente de trabalho.

Em vias com grande circulação de pedestres, a redução da velocidade diminui a letalidade dos sinistros de trânsito – Ecovias Minas Goiás

APESAR DE PISAR NO ACELERADOR, POPULAÇÃO ASSOCIA LIMITES À CIDADANIA

A pesquisa mostra ainda que a velocidade não é apenas uma escolha individual. Mais de 90% dos entrevistados associam o respeito aos limites à cidadania e à preservação da vida. Mas para um terço deles, essa disposição cede diante de atrasos, urgências e da pressão dos demais veículos, o que Isler classificou como um paradoxo.

O desenho das ruas e avenidas também pesa: em vias locais e cruzamentos, placas combinadas com lombadas e minirrotatórias reduzem em até 10 km/h a velocidade média praticada, enquanto em avenidas expressas e pistas largas os motoristas tendem a ignorar os avisos.

Os dados subsidiam o Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans), que prevê cortar pela metade as mortes no trânsito até 2030, e o relatório recomenda que gestores adequem o limite regulamentado ao perfil real da via e adotem intervenções físicas onde há grande circulação de pedestres.

Fonte: JC

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