O impacto da instalação de Data Centers no Brasil e a influência da Inteligência Artificial no setor elétrico são temas da Coniben 2026

O impacto da instalação de Data Centers no Brasil e a influência da Inteligência Artificial no setor elétrico são temas da Coniben 2026

Tema central nas discussões de empresários, governos e diretores de instituições que cuida do gerenciamento do setor elétrico em nível global a instalação de Data Centers mode tanto interesses de investidores interessado retorno desse novo negócio, como de ambientalistas preocupados com o consumo água para a refrigeração de seus parque de máquinas e esteve entre os temas tratados pelo presidente Lula no seu discurso de agradecimento pela vitória eleitoral deste domingo quando prometeu dar condições para que o Brasil seja um grande destino desses capitais destacando a função estratégica para a segurança nacional.

Faz sentido. Apenas no recorte dos grandes data centers, por exemplo, o consumo projetado passaria de aproximadamente 3 TWh em 2026 para 30 TWh em 2036. E impactaria o crescimento do consumo nacional em 3% em 2036, e a demanda em cerca de 10% no decênio.

O Brasil, de fato, tem vantagens importantes para receber esses investimentos: uma matriz elétrica predominantemente renovável, grande disponibilidade de recursos energéticos e uma extensa rede interligada.

Além disso, o próprio Plano de Desenvolvimento Estratégico (PDE 2036) elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética projeta que 88,8% da geração elétrica permanecerá renovável em 2036, com cerca de 65 GW adicionais de solar e eólica, incluindo geração distribuída.

Entretanto, para o planejamento, a abordagem disso não passa apenas por quanto esses empreendimentos vão consumir. E para o presidente da EPE, Thiago Prado, localização, potência demandada, cronograma de implantação, perfil horário e exigência de confiabilidade são igualmente importantes. Um data center de grande porte conectado em um ponto com capacidade disponível produz um impacto muito diferente do que um que exija reforços significativos na rede.

“Por isso, será necessário coordenar o crescimento dessas cargas com geração, transmissão e novas soluções de flexibilidade, como, por exemplo, resposta à demanda, autoprodução e armazenamento de forma isolada ou combinada”, adverte o executivo.

Ele chama a atenção para outro aspecto: a forma de planejar e operar também se transforma. Se antes cenários de perda da maior central geradora ou da maior máquina são considerados nos estudos de confiabilidade, o desligamento de grandes cargas também deverá ser objeto de estudo, antevendo os seus efeitos e perturbações no sistema elétrico.

“O desafio não é apenas produzir energia suficiente para os data centers; é garantir energia, potência, rede e confiabilidade no lugar e no momento em que essas novas cargas surgirem e passarem a operar continuamente na rede”, diz Thiago Prado.

Sua análise está em linha com a Assessora Executiva da Diretoria de Planejamento do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Sumara Ticom, ao revelar que o ONS vê a chegada dos data centers como parte de um movimento mais amplo, que a Agência Internacional de Energia chama de “Era da Eletricidade”, em que o consumo de eletricidade cresce bem mais rápido que o consumo total de energia.

No Brasil, desta Sumara Ticom, esse movimento já é concreto. Lembrando que, com a abertura da primeira Temporada de Acesso, em junho de 2026, o ONS havia recebido 144 pedidos de conexão de data centers à rede de transmissão, que somam 17,5 GW de demanda. Cerca de 8 GW desse total, viabilizados ainda no modelo anterior de acesso, já têm contrato assinado ou viabilidade de conexão confirmada.

Thiago Prado EPE. – Divulgação

Empreendimentos de grande porte e impactantes

Mas não basta querer. O principal desafio é de tempo e de lugar, afinal um data center pode ser construído em dois ou três anos, enquanto linhas de transmissão e reforços de rede exigem prazos bem maiores. Além disso, esses empreendimentos tendem a se concentrar em poucos pontos da rede, com demandas de centenas de megawatts. “Sem planejamento, o consumo pode crescer mais rápido que a infraestrutura capaz de atendê-lo, criando gargalos de conexão”, adverte.

Para Sumara Ticom, as ações necessárias seguem quatro frentes: A primeira é a expansão da rede. A EPE, responsável pelo planejamento da expansão da transmissão, vem incorporando aos seus estudos as regiões que concentram os maiores pedidos de conexão e indicando os reforços e as novas instalações necessários para atendê-las, em estreita articulação com o ONS.

A segunda frente é a conexão planejada, com o objetivo de reduzir o descompasso entre o prazo de implantação das cargas e o da rede. A rede deve chegar aonde as cargas pretendem se instalar e as cargas também precisam ser orientadas para onde a rede já pode recebê-las, o que exige transparência sobre a capacidade disponível em cada ponto, destaca a analista.

A terceira, da lista dela, é a definição de requisitos técnicos que assegurem o bom desempenho dessas cargas diante de distúrbios na rede e, finalmente, a quarta é a discussão de modalidades de conexão flexível, “que permitam à carga se conectar mais rapidamente sem transferir riscos aos demais consumidores”.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas, como o órgão de planejamento de médio e longo prazo, o que a EPE define como as premissas para o suporte técnico que esse novo cliente exige?

O presidente da EPE avalia que a primeira premissa é justamente que não podemos tratar grandes cargas apenas como um acréscimo agregado de consumo. O planejamento precisa saber onde a carga pretende se conectar, qual sua potência, quando entrará em operação, qual seu perfil de consumo e quais são seus requisitos de continuidade e qualidade do fornecimento. O PDE 2036 explica o fato de que se trata da expansão das grandes cargas conjuntamente com a evolução da transmissão.

“Infraestrutura existente e expansão já planejada criam condições para atender parte importante da nova demanda. Mas a capacidade efetiva depende fortemente do ponto de conexão e das condições locais da rede, alerta Thiago Prado.

Mas não basta simplesmente construir novas linhas. Em São Paulo, por exemplo, o planejamento já avalia reforços e equipamentos de controle de fluxo para aumentar o aproveitamento da infraestrutura existente. Já no Nordeste, os estudos combinam a disponibilidade de grande volume de geração renovável com a possibilidade de entrada de novas cargas eletrointensivas.

Função estratégica do planejamento

Do ponto de vista do ONS, que viverá esse planejamento na prática e em tempo real, a principal premissa é que a conexão de novas cargas aconteça de forma planejada e eficiente, com base na capacidade efetivamente disponível da rede.

Sumara Ticom lembra que para isso, o Brasil instituiu em 2025 a Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (PNAST), operacionalizada pelo ONS. No modelo anterior, os pedidos de conexão eram atendidos por ordem de chegada, em uma fila.

Mas esse modelo não alocava adequadamente a capacidade da rede de transmissão, que se tornou um recurso escasso em diversos pontos do sistema. Com a PNAST, os pedidos passam a ser reunidos em janelas periódicas, as Temporadas de Acesso, esclarece, explicando que o ONS publica a capacidade disponível em cada ponto da rede e avalia as solicitações em conjunto. Onde a capacidade é suficiente, os pedidos são atendidos, lembrando que a primeira temporada, realizada em 2026, mostrou o valor dessa transparência.

“Onde ela é insuficiente, os interessados competem pelo acesso, e os valores adicionais pagos por essa capacidade escassa são revertidos para a modicidade tarifária, em benefício dos consumidores. Olhar todos os pedidos ao mesmo tempo também mostra onde serão necessários reforços, informação que orienta o planejamento da expansão da transmissão.

“A segunda premissa é técnica. Assim como já ocorre com os geradores, as grandes cargas precisam atender a requisitos de conexão que assegurem seu bom desempenho diante de distúrbios na rede.” conclui Sumara Ticom.

As análises da assessora Executiva da Diretoria de Planejamento do ONS e do presidente da EPE têm a marca de pensar a instalação de Data Centers e, consequentemente, equacionar as necessidades de energia firme para um dos grandes mercados globais , até porque o Brasil pretende abrigar metade de todos os projetos na América Latina, inclusive por questões de segurança nacional na visão do governo.

Mas que energia devemos (ou podemos de fato) ofertar a esse novo mercado?
Para Sumara Ticom no Sistema Interligado Nacional, o impacto dos data centers depende menos do volume total e mais de onde essas cargas se instalam, de seu perfil de consumo e da flexibilidade que podem oferecer.

“A matriz predominantemente renovável e a base ampla de recursos energéticos são uma vantagem competitiva real para atividades que buscam energia de baixa emissão em grande escala, e o desafio é transformar essa vantagem em uma integração eficiente para o sistema.E existe uma possível complementaridade”, diz a executiva.

Esse é um cenário importante. O país já convive com excedentes de geração renovável em determinados períodos, e os cortes de geração chegaram a 7,6 GW médios em agosto de 2026. Novas cargas podem ajudar a absorver parte dessa energia e reduzir a necessidade de cortes. Entretanto, essa relação, contudo, não é automática.

Uma carga que consome de forma constante absorve parte dos excedentes do meio do dia, mas acrescenta a mesma demanda no fim da tarde, quando a geração solar cai e a potência fica mais escassa. Já uma carga capaz de deslocar parte do consumo para os períodos de maior oferta tem um valor bem maior para o sistema.

Sumara Ticom NS – Divulgação

Observar a experiência internacional

“Porém, a experiência internacional traz outro ponto de atenção”, lembra Sumara Ticom. Em vários países, a disputa por capacidade de rede vem alongando as filas de conexão, e empreendimentos industriais e residenciais passaram a competir com data centers pelo mesmo recurso. No Brasil, a PNAST foi concebida para alocar essa capacidade escassa de forma eficiente e transparente.

Thiago Prado completa essa interpretação destacando que instrumentos de planejamento da EPE se apropriam continuamente das informações de mercado disponíveis, dos projetos anunciados, dos pedidos de conexão, das perspectivas dos agentes e das políticas públicas que podem alterar a trajetória da demanda.

Nesse sentido, o planejamento é um processo dinâmico: a cada novo ciclo, essas informações são reavaliadas e incorporadas às projeções de carga e às necessidades de expansão do sistema. O PDE 2036, que cobre o período de 2027 a 2036, já incorpora uma expansão bastante significativa dos data centers. O Plano, no caso dos grandes data centers, projeta uma trajetória de aproximadamente 3 TWh em 2026 para 30 TWh em 2036,lembra o presidente da EPE.

Esse cenário está contido no Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (REDATA), o suporte legal que vai orientar a instalação desse novo complexo de produção dentro do sistema operado pelo ONS. E para Thiago Prado, parte dos efeitos iniciais associados ao ambiente criado pelo Redata aparece nas informações de mercado que alimentam o planejamento. Ao mesmo tempo, ainda não seria adequado tentar isolar, neste momento, uma parcela da demanda exclusivamente atribuível ao novo regime.

Até porque a materialização desses projetos ocorre de forma gradual. E porque ao longo do tempo, novas informações sobre localização, potência, cronograma de implantação, maturidade dos projetos e efetiva decisão de investimento permitem refinar as projeções.

“O REDATA reforça essa trajetória ao melhorar as condições para atração de novos investimentos em infraestrutura digital. Além dos incentivos tributários, o regime estabelece contrapartidas que dialogam com a agenda energética e de sustentabilidade, incluindo requisitos relacionados ao suprimento de energia de fontes renováveis ou de baixa emissão.

O REDATA reforça essa trajetória ao melhorar as condições para atração de novos investimentos em infraestrutura digital”, avalia o executivo.

Sumara Ticom chama a atenção para um dos pontos que serão tratados no painel (do qual ela fará parte), relacionado ao impacto do uso da Inteligência Artificial como ferramenta de trabalho na condução desse processo.

“Os data centers de IA têm características próprias. Concentram centenas de megawatts em um único ponto e operam praticamente sem interrupção, o que exige potência disponível em todos os horários, inclusive na janela crítica do fim da tarde, quando a geração solar cai e a carga líquida sobe rapidamente”, diz.

Data Centers são uma nova fronteira para o consumo de energia. – DIVULGAÇÃO

Importância da IA como ferramenta de decisão

Ela prossegue a análise afirmando que existe também uma dimensão menos visível, a do comportamento dinâmico. “Essas cargas são conectadas por eletrônica de potência e reagem a variações de tensão e frequência de forma diferente das cargas industriais tradicionais. No treinamento de modelos de IA, o consumo também pode variar bruscamente em frações de segundo”, informa.

Ela lembra o dia 13 de agosto deste ano quando a carga líquida subiu cerca de 40 GW em seis horas. “Uma nova carga inflexível nesse horário aumenta a necessidade de potência do sistema exatamente quando ela é mais escassa”. E “nesse cenário, um afundamento de tensão causado por um curto-circuito comum, os sistemas de proteção dos data centers (com a ajuda de IA)podem retirar grandes blocos de carga de uma só vez”.

Para ela, esse cenário exige premissas importantes: a primeira é os requisitos técnicos de conexão, para que essas cargas permaneçam conectadas durante distúrbios e tenham seu comportamento bem representado nos estudos. A segunda é a conexão planejada, por meio da PNAST e do futuro mapa de capacidade de conexão de demanda. A terceira é a conexão flexível.

Para Thiago Prado, os relatos do ONS vividos em tempo real reforçam a necessidade de ter um planejamento cada vez mais robusto. “Uma mesma quantidade de carga pode produzir impactos muito diferentes sobre o sistema dependendo de sua localização, do ponto de conexão e do momento em que entra em operação”, alerta.

Ele destaca a importância do ciclo anual do PDE, avaliando que os próximos planos poderão incorporar informações progressivamente mais concretas sobre os efeitos do Redata, sobre os projetos que avancem para etapas mais maduras e sobre a resposta efetiva do mercado aos incentivos. O que, segundo ele, permite que as projeções de demanda e as necessidades de geração, transmissão e flexibilidade sejam continuamente ajustadas à realidade.

Ao avaliar a importância de eventos de alto nível como o Coniben, que reúnem em um mesmo ambiente diferentes dimensões da transformação do setor energético, tais como planejamento, regulação, operação, tecnologia, segurança energética e investimento, Gustavo chama a atenção para o fato de o evento estimular o debate de cenários.

“Isso é cada vez mais relevante porque os principais desafios do setor deixaram de caber dentro de uma única disciplina ou instituição. Data centers e inteligência artificial são um bom exemplo, avalia.
Para a assessora executiva da Diretoria de Planejamento do ONS, a CONIBEN é um espaço importante de troca de conhecimento em um momento de profunda transformação do setor elétrico, no mundo e nos países ibero-americanos.

Para ela, o Brasil tem muito a contribuir com esse debate. Temos um sistema interligado de dimensão continental, uma matriz predominantemente renovável e uma experiência acumulada na operação com alta participação de fontes eólicas e solares, inclusive da geração distribuída.

Thiago Prado e Sumara Ticom estarão no painel Data Center e Inteligência Artificial na Conibem, que se realiza em Lisboa entre os dias 12 e 13 de novembro, reunindo 150 especialistas do Brasil, Portugal e Espanha num evento que foca no futuro do setor elétrico nos três países.

O evento no Hotel Tivoli em Lisboa é promovido e realizado pela PMais Eventos, liderada pelo empresário Paulo Meneses, com consultoria técnica da Acrópolis Energia, liderada pelo professor e consultor Reive Barros.

 

Fonte: JC

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