SÃO PAULO – Esta cena ocorreu na abertura do 43º Congresso Brasileiro de Psiquiatria (CBP), encerrado no sábado (31), na capital paulista: diante de um auditório lotado de médicos de todo o País, o anúncio oficial da posição da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) pelo banimento completo das apostas de quota fixa (as populares bets) e dos cassinos online foi recebido com aprovação.
O gesto da comunidade médica não reflete apenas um alinhamento corporativo. É o desabafo de profissionais que lidam diariamente, nos consultórios e hospitais, com as feridas abertas por um mercado que se expandiu de forma avassaladora na rotina dos brasileiros.
Durante anos, as plataformas de apostas on-line transformaram celulares em verdadeiros cassinos de bolso. Disponíveis a qualquer hora, esses serviços passaram a fazer parte da rotina de milhares de brasileiros, com jogos como o chamado “tigrinho” e apostas esportivas que ganharam espaço, inclusive durante as transmissões de futebol.
Para a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), os efeitos desse mercado ultrapassam as perdas financeiras e podem atingir diferentes dimensões da vida dos apostadores. A avaliação da psiquiatria brasileira é categórica: o que tem sido vendido ao público sob o rótulo inofensivo de “entretenimento” transformou-se em uma grave crise de saúde pública, alimentada pela proliferação irrestrita de jogos de azar acessíveis 24 horas por dia.
O presidente da ABP, Antônio Geraldo da Silva, chamou a atenção para os prejuízos provocados pelo comportamento de apostar de forma descontrolada. “A pessoa entra numa plataforma e, em segundos, está dentro de um cassino 24 horas por dia na palma da mão. A pessoa joga incessantemente. É um absurdo que isso continue sendo permitindo”, disse.
Na solenidade de abertura do congresso, ele tornou público o posicionamento oficial da entidade em defesa do fim das plataformas de apostas de quota fixa, popularmente conhecidas como bets, assim como dos jogos de azar/cassinos online no Brasil.
“O que muitas vezes é apresentado como simples entretenimento pode se transformar em um grave problema de saúde pública, contribuindo para o desenvolvimento do transtorno do jogo, o endividamento, a desestruturação familiar e consequências severas para a saúde mental. Não podemos aceitar que os interesses econômicos de um setor se sobreponham à saúde, à dignidade e à vida dos brasileiros”, destacou, em manifesto, a ABP.
O impacto financeiro chega às famílias
O endividamento é uma das consequências mais preocupantes. Segundo Antônio Geraldo, há pessoas que recorrem a empréstimos consignados, comprometendo até 50% ou mais do salário para continuar apostando ou tentar recuperar o dinheiro perdido.
O problema também pode atingir a vida profissional e familiar. Há relatos de pessoas que pedem demissão para ter acesso a verbas rescisórias e ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), na tentativa de conseguir recursos para continuar jogando ou quitar dívidas.
“Temos um volume impressionante de pessoas fazendo empréstimos consignados ou tirando do próprio salário, sem conseguir pagar as contas básicas. Sabia-se de limites teóricos de margem consignável, mas na prática não há controle rígido, e as pessoas têm até 50% ou mais de seus salários retidos por dívidas de aposta”, denuncia Antônio Geraldo.
Além das perdas econômicas, o cenário geralmente provoca conflitos familiares, sofrimento psicológico e situações de grande vulnerabilidade. A ABP também alertou para o risco de suicídio entre pessoas afetadas por esse contexto.
Nos quadros mais graves, o esgotamento financeiro e o isolamento social desembocam em crises psiquiátricas severas. O desespero diante da impossibilidade de reestruturar a vida material e familiar tem levado pacientes ao limite extremo do sofrimento psíquico, com risco aumentado de comportamento suicida – consequência de uma dependência comportamental grave e frequentemente negligenciada.
Banimento das plataformas muda o cenário
A discussão sobre a regulamentação das apostas ganhou um novo capítulo com a Medida Provisória nº 1.394/2026, que determinou a proibição das plataformas de apostas no Brasil.
A medida representa uma mudança no cenário enfrentado pelo país e se aproxima da posição defendida pela Associação Brasileira de Psiquiatria, que vinha alertando para os danos associados à expansão das bets e dos cassinos on-line.
A entidade mantém sua atuação em defesa de medidas de proteção à população e de políticas públicas voltadas à prevenção dos problemas relacionados ao jogo.
Para Antônio Geraldo, o enfrentamento da questão exige uma resposta que considere os impactos sociais e de saúde provocados pelas apostas.
Uma questão de saúde pública
A retirada das plataformas do mercado não elimina, por si só, os problemas já provocados pelo comportamento compulsivo de apostar. Pessoas endividadas, famílias afetadas e indivíduos que desenvolveram uma relação problemática com o jogo ainda podem precisar de acolhimento e assistência.
Por isso, o debate sobre as bets não se encerra com o banimento. A prevenção, o reconhecimento precoce dos sinais de comportamento compulsivo e o acesso ao tratamento continuam sendo fundamentais.
Mais do que uma discussão sobre apostas ou legislação, trata-se de uma questão de saúde pública, que envolve proteção, cuidado e atenção às consequências que o jogo pode deixar na vida das pessoas.
*A jornalista acompanhou os destaques do congresso a convite da ABP.
Fonte: JC
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