O mercado imobiliário brasileiro foi atingido, nos últimos dias, por uma tempestade perfeita que acende o alerta vermelho para a economia. Em um movimento em bloco que escancara a gravidade do cenário macroeconômico, os três maiores bancos privados do país anunciaram reajustes agressivos nas suas taxas de crédito habitacional. O Santander confirmou o aumento dos seus juros, elevando a sua taxa mínima de 11,69% para 12,49% ao ano, juntando-se a uma onda de encarecimento iniciada de forma abrupta pelo Bradesco — que fez a sua taxa mínima saltar de 11,69% para impressionantes 15% ao ano (mais a TR) — e acompanhada pelo Itaú, que reajustou o seu piso para 12,95% ao ano.
O impacto dessas medidas conjuntas é absolutamente sistêmico e paralisante. Apenas para se ter uma dimensão do peso dessa asfixia, Bradesco, Santander e Itaú responderam juntos por mais de 50% de todo o crédito imobiliário concedido com recursos da caderneta de poupança entre janeiro e agosto de 2026, com cerca de R$ 58,2 bilhões em financiamentos para aquisição de imóveis, mais da metade dos R$ 105,1 bilhões concedidos no período, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip). O movimento de forte encarecimento traz uma restrição ao crédito que atinge a esmagadora maioria das famílias que buscam o financiamento da casa própria fora dos bancos públicos, trazendo muita pressão sobre a Caixa Econômica Federal, a líder do setor.
A justificativa técnica das instituições financeiras aponta diretamente para a disparada contínua das curvas de juros futuros no país. O financiamento da casa própria é, por natureza, uma operação financeira de longuíssimo prazo, que exige estabilidade e previsibilidade. Com a fuga histórica e ininterrupta de recursos da tradicional caderneta de poupança (que sempre foi a fonte de captação mais barata para os bancos), as instituições precisam recorrer a captações atreladas ao mercado financeiro para conseguir emprestar. Assim, quando a perspectiva macroeconômica do país se deteriora e o risco aumenta, o dinheiro no mercado fica mais caro, e a fatura desse encarecimento é repassada quase que imediatamente ao bolso do mutuário.
Como se não bastasse o forte estresse na curva de juros, uma nova e grave preocupação paira sobre o setor: a intenção do governo federal de passar a tributar as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs). As LCIs são um dos principais instrumentos de captação de recursos dos bancos para financiar exclusivamente o setor habitacional, atraindo investidores justamente pela sua isenção de Imposto de Renda e de IOF. Se o governo avançar com a tributação desses papéis na sua ânsia por aumentar a arrecadação, o investidor exigirá taxas de retorno maiores para compensar o imposto pago. Na prática, isso encarecerá de forma drástica o custo de captação dos bancos, o que retrairá ainda mais a disponibilidade de crédito no mercado imobiliário e empurrará as taxas de juros para o consumidor final a patamares proibitivos.
As consequências dessa elevação desenfreada são extremamente severas para o tecido social e produtivo. Para as famílias, juros mais altos impõem parcelas mensais muito mais pesadas, asfixiam a renda doméstica e forçam os bancos a aprovar limites de crédito significativamente menores e enquadrar menos famílias nas operações de crédito. O cidadão que planejava comprar um imóvel descobre, da noite para o dia, que a sua renda já não comporta o financiamento, sendo obrigado a adiar o sonho.
Com o acesso ao crédito dificultado, a construção civil — que historicamente é a engrenagem que mais emprega no país de forma rápida e capilarizada — é atingida em cheio. O freio abrupto nos lançamentos de novos empreendimentos e a queda vertiginosa nas vendas fatalmente provocarão cortes de vagas diretas nas obras e nas indústrias da base, abalando a geração de empregos formais e freando severamente a expansão do nosso PIB.
A raiz profunda dessa asfixia setorial atende pelo nome de desequilíbrio fiscal. O estresse constante na curva de juros futuros é o sintoma direto da percepção de que há um descontrole no avanço das contas e dos gastos do governo. O apetite arrecadatório que mira as LCIs é apenas mais uma face desse mesmo problema de gastança. Para salvar o setor habitacional e destravar o crédito na ponta, o país precisa, imperativamente, construir um equilíbrio fiscal rigoroso, sólido e crível. Apenas o compromisso real com as contas públicas é capaz de devolver ao mercado a previsibilidade estrutural necessária para ancorar as expectativas, afastar o fantasma da tributação sobre os investimentos produtivos e reduzir os juros na economia real de forma duradoura.
Fonte: JC
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