Por trás dos juros altos

Por trás dos juros altos

O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) recebeu reações divididas pela manutenção, na semana passada, do mais elevado patamar de juros do mundo, deixando a taxa básica do país, a Selic, estável em 13,75% ao ano, após uma sucessão de cortes que pareciam indicar a tendência de redução gradual dos juros. De um lado, as críticas apontam para a Selic como a um bode expiatório, responsável pela contenção no crescimento econômico brasileiro. Por outro lado, a defesa dos juros enquanto mecanismo de proteção contra a inflação, por exemplo, cujo descontrole deixou traumas profundos na sociedade e na cultura econômica nacional, em espirais de remarcações de preços que culminaram na hiperinflação, nos anos 1980.
A confirmação de que o Brasil continua com os juros reais mais elevados, descontada a inflação, no ranking de 40 nações elaborado pela consultoria Moneyou, atiçou os críticos de plantão – e não sem razão. O problema é que há razões de ambos os lados. Ao liderar uma lista que traz, em seguida, a Turquia, a Argentina e a Rússia, o juro real daqui não configura invenção despropositada, nem obstáculo único para a estagnação econômica e social no país. Mesmo sendo remédio amargo, o patamar de juros pode ser defesa necessária contra o descarrilamento completo da economia. Ainda mais quando o setor público possui a despropositada, isso sim, mania de gastar mais do que arrecada, prometer obras redentoras e programas salvacionistas, sem o correspondente recurso garantido em caixa para quitar os compromissos sem precisar retirar de outro canto, no cobertor sempre curto da irresponsabilidade política, administrativa e fiscal.
A inflação acima do teto de controle é um dos motivos que levaram o Copom a não mexer na Selic para baixo, frustrando a expectativa de queda programada. Também não ajudaram as declarações do presidente da República reeleito, ainda em campanha, minimizando a responsabilidade fiscal em detrimento de despesas, segundo Lula, indispensáveis para gerar crescimento para distribuir seus efeitos positivos. Ex-ministro da Fazenda na ditadura militar, Antônio Delfim Netto não pensava muito diferente ao declarar que “é preciso primeiro fazer o bolo crescer para depois dividi-lo”. Nos últimos dias, Lula vem sendo orientado a equilibrar o discurso populista com sensatez a respeito dos gastos públicos, pois o cenário da economia nos próximos anos poderá cobrar mais caro do que a retórica fácil imagina. E quem paga a conta é o povo, como sempre, pela gastança de governos que afundam no cheque especial da dívida pública.
Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), ecoando o pensamento vigente no Planalto, a decisão do Banco Central é injustificável, prejudicando as empresas e as famílias brasileiras. Com juros mais altos, os investimentos são mais caros e a dívida pública cresce em ritmo alucinante. Mas por trás dessa realidade indesejada por todos, condicionantes históricas e a teimosia de gestores que preferem gastar sem olhar a conta tornam a manutenção dos juros altos uma questão complexa, que depende tanto de visão política quanto de prevenção econômica para ser destrinchada.

Fonte: JC

About

Veja também

Os institutos de pesquisa erraram?

Os institutos de pesquisa erraram?

Os institutos de pesquisa não erraram na última eleição presidencial, em especial, no segundo turno, …