Rejeição faz história nos EUA

Rejeição faz história nos EUA

Democracia é estabilidade num processo político que tem sempre à disposição do eleitorado a prerrogativa da mudança. Em exemplo clássico dessa característica, nos Estados Unidos, a onda azul democrata de 2026 reverte a onda vermelha republicana de apenas dois anos atrás, quando Donald Trump se sagrou presidente pela segunda vez, com expressiva votação e domínio no Congresso, com toda legitimidade conferida pelos votos. Mas nesse curto intervalo de tempo, o governo de Trump e sua imagem como líder nacional despencaram nas pesquisas de popularidade, disseminando um sentimento de rejeição que determinou uma espécie de revolta nas urnas, esta semana, em favor dos candidatos e candidatas do Partido Democrata – mas sobretudo contra o magnata e o partido associado a ele, o Republicano, visto como “o partido de Trump”.
O caráter plebiscitário das eleições de meio de mandato foi enfatizado pelo próprio presidente, que incitou o eleitorado a escolher como se o nome dele constasse na cédula. E foi isso que o povo estadunidense fez, só que não direção contrária ao que Trump esperava. A decisão da maioria reflete reação a pelo menos três fatores, que articulados explicam, em parte, a derrota monumental dos republicanos: o desastre de medidas que influenciaram na economia doméstica, como o tarifaço a produtos importados e a insistência com a guerra contra o Irã; o aumento de denúncias de corrupção envolvendo o presidente e seus familiares, inclusive com a manipulação entre a política e o mercado financeiro; e a perseguição aos imigrantes, especialmente de origem latina, numa terra que se desenvolveu sob os ideais de acolhimento e abertura de oportunidades, contrariando as conquistas celebradas com uma Estátua da Liberdade.
Na esteira de vitória devastadora para o trumpismo, os democratas elegeram 22 governadores nos 36 estados em que o cargo estava em disputa. A diversidade mostrou sua força, com a primeira governadora negra, a primeira governadora indígena, o primeiro senador muçulmano, e a cogitação do primeiro negro a presidir o Senado do país. Com maioria na Câmara de Representantes e no Senado, os democratas ganham poder de oposição – mas como declarou em comunicado oficial a Casa Branca, Donald Trump ainda é o presidente dos EUA. E poderá vetar muitas decisões do Congresso oposicionista – assim como dependerá do Congresso de maioria democrata para aprovar o orçamento e outras medidas essenciais de governo.
Com a negativa plebiscitária e a popularidade baixa, talvez a segunda metade do mandato venha a ser menos espalhafatosa e desestabilizadora que a primeira metade, ainda que, em se tratando de Trump, a imprevisibilidade seja parte da rotina. Mas o mais impactante resultado destas eleições, com desdobramentos no mundo inteiro, e certamente também aqui no Brasil, foi a manifestação coletiva em prol da alternância de poder, da necessidade dos contrapesos à arrogância de quem exerce o poder como se estivesse acima de tudo e de todos. O voto de rejeição faz parte da democracia – e a democracia importa, vitoriosa em cada eleição, deixando mensagens e renovando o aperfeiçoamento institucional e a esperança das pessoas no processo democrático.

Fonte: JC

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