Protestos no topo do mundo

Protestos no topo do mundo

Comunidade de países ricos, alguns dos quais já delimitaram impérios que dominaram outros povos do continente e de terras distantes, a Europa volta a atravessar um momento de insatisfação nas ruas, com várias manifestações reunindo multidões em queixas de agenda ampla, como no Brasil de 2013. Mais de 50 cidades, somente na Itália, foram palco de protestos. Neste sábado, estão marcados encontros em praças públicas na França e em pelo menos 30 cidades da Alemanha, preocupando as autoridades que começam a endurecer a repressão à medida em que manifestantes menos pacíficos passam a aparecer.
A agenda ampla, segundo analistas, desta vez tem relação com demandas da geração Z – nascida entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2010, ou seja, de indivíduos atualmente com idades entre 16 e 35 anos. São jovens crescidos na era digital, que experimentaram o impacto da pandemia em fase recente desse amadurecimento. Na pauta de cobranças, emergem temas como o aporte de recursos nas escolas para melhorias na educação, a insatisfação com o custo de vida elevado, em especial na habitação, a rejeição ao serviço militar e a atenção à crise climática.
Embora não haja, ainda, definição político-partidária para as mobilizações, começam a surgir divergências entre os movimentos espontâneos organizados pelas redes sociais, e entidades que respondem por iniciativas pela educação, por exemplo. Partidos de direita apontam o risco de extremismo de esquerda nos protestos, como forma de justificar ações mais duras de repressão, com maior uso da força policial, e até do exército. Segundo informações da RFI, apenas na França 70 mil policiais estarão de prontidão em todo o país, neste sábado, por causa das expectativas criadas em torno de protestos mais violentos, após episódios recentes em Paris e outros locais.
Na Itália, estudantes gritam em coro: “Baixem as armas e aumentem os salários!”, numa clara reação ao belicismo de governos que investem cada vez mais em armamentos, entre outros fatores, devido à diminuição do financiamento dos Estados Unidos à OTAN e à defesa da Europa, e os efeitos da guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Um revoltado espírito do tempo se levanta, talvez não sem demora, ante a contínua gastança dos Estados nacionais com munições e tecnologia de guerra. Trata-se de um dos aspectos relevantes na observação dos limites da democracia representativa. Seja pela liberdade de movimento entre os países, seja pelas oportunidades de educação e trabalho que parece ofertar a quem está de fora, a Comunidade Europeia traduz um modo de vida idealizado como digno na civilização global contemporânea – apesar da opressão sobre outros povos que os países europeus praticaram para chegarem onde estão.
Mas as tensões sobre a integridade do bloco de nações não se apartam das manifestações atuais. Se os governantes e os sistemas políticos e econômicos de cada país são postos em xeque, a configuração da comunidade de países também é questionada, tanto pela juventude, sem foco determinado, quanto por setores bem consolidados como a agricultura. A cidadania na Europa cobra reformas que garantam legitimidade à integração, sem esquecer o valor das conquistas sociais associadas à sua história.

Fonte: JC

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