A direita brasileira conseguirá construir um caminho que não necessite do sobrenome Bolsonaro na urna? A saída de Flávio Bolsonaro do Brasil, depois da derrota na disputa presidencial, e a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro colocam essa pergunta no centro da reorganização da oposição.
Existe espaço para novas lideranças. Falta saber quem está disposto a ocupá-lo e, principalmente, com qual grau de independência.
Sobrenome
A ausência dos Bolsonaro não representa, automaticamente, a libertação política de quem cresceu ao redor deles. É possível estar fora do país e continuar influenciando escolhas, impondo limites e cobrando fidelidade. Também é possível colocar outro co o mesmo sobrenome na urna e preservar a mesma relação de dependência.
Por isso, a discussão vai além de encontrar um candidato. A direita conseguirá escolher seu representante sem pedir autorização à família? Terá liberdade para definir prioridades que contrariem os interesses dos Bolsonaro? Conseguirá disputar o eleitorado conservador com uma proposta que tenha valor próprio?
São perguntas que a saída de Flávio torna mais urgentes.
Tarcísio
É nesse cenário que merece atenção o vídeo divulgado por Tarcísio de Freitas (Republicanos). Ao repetir que “a eleição passou” e defender um projeto de país, o governador de São Paulo oferece um ponto de partida para discutir o futuro da oposição. Há um governo a fiscalizar, propostas a apresentar e uma próxima eleição a construir.
Tarcísio reconhece o resultado, embora mantenha críticas à condução do processo eleitoral. Evita comentar a saída de Flávio. Sua manifestação permite enxergar uma tentativa de ocupar espaço, mas seria precipitado tratá-la como uma declaração de independência. Ele está se colocando como uma liderança dessa nova oposição. E começa muito bem.
Mas o governador de São Paulo está diante de um desafio que exige mais do que comunicação. Ele precisa conquistar liberdade política sem perder o apoio dos eleitores que se identificam com Bolsonaro. Precisará mostrar, caso pretenda liderar esse campo, que consegue conduzi-lo também quando suas decisões não coincidirem com a vontade da família.
Dependência
Há uma diferença importante entre uma direita sem Bolsonaro como candidato e uma direita capaz de caminhar sem a tutela dos Bolsonaro. A primeira hipótese cabe numa convenção partidária. A segunda exige liderança, disposição para enfrentar conflitos e apoio popular.
Tarcísio pode se apresentar como alternativa. Mas, enquanto sua viabilidade depender da autorização de outro líder, haverá um limite para o protagonismo que pretende exercer.
O teste aparecerá nas prioridades da oposição. Quando a construção de uma agenda para o país entrar em conflito com as necessidades políticas e judiciais da família, qual delas prevalecerá? A resposta dirá mais sobre a autonomia da direita do que qualquer vídeo sobre o futuro.
Futuro
Também é um erro, por enquanto, decretar o fim do bolsonarismo. A derrota, a prisão de Jair e a saída de Flávio podem alimentar o discurso de perseguição e fortalecer a fidelidade de parte dos eleitores. Distância física não equivale a irrelevância política.
A oportunidade para novas lideranças existe. Transformá-la em independência será outra história. A eleição passou, como repetiu Tarcísio várias vezes no mesmo vídeo. Resta saber se a direita conseguirá construir um caminho que não necessite do sobrenome Bolsonaro na urna.
Fonte: JC
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