O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) participaram, nesta sexta-feira (23), do último debate presidencial antes do segundo turno das eleições de 2026, marcado para domingo (25).
No encontro promovido pela TV Globo, no Rio de Janeiro, os candidatos discutiram propostas para a economia, políticas sociais, infraestrutura e segurança pública, mas encerraram a noite com uma sequência de acusações pessoais envolvendo suspeitas de corrupção, patrimônio e relações com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Diferentemente do primeiro confronto, realizado no domingo (18), pela Band, os candidatos dedicaram a maior parte do debate à apresentação de propostas e à defesa das realizações de seus respectivos grupos políticos. Lula procurou questionar os impactos de um eventual ajuste fiscal de Flávio sobre programas sociais e serviços públicos, enquanto o senador concentrou as críticas no endividamento das famílias, na carga tributária e na perda do poder de compra dos brasileiros.
O tom mudou no último bloco, dedicado a temas livres, quando os dois passaram a trocar acusações sobre investigações envolvendo pessoas próximas, declarações de patrimônio e o escândalo do Banco Master. Antes disso, um dos momentos de maior tensão ocorreu quando Flávio se referiu ao presidente como “nove dedos”, em alusão ao acidente de trabalho sofrido pelo petista na juventude. Lula reagiu chamando o adversário de “miliciano”, e o senador pediu desculpas pela expressão utilizada.
Economia e endividamento
O endividamento dos brasileiros esteve entre os assuntos mais recorrentes do confronto. Flávio responsabilizou a política econômica do governo Lula pela elevação dos juros, pela inflação e pela dificuldade das famílias de manter o consumo. O senador afirmou que a gestão petista gasta mais do que arrecada e prometeu reduzir despesas públicas sem comprometer programas sociais.
Uma das principais propostas apresentadas pelo candidato do PL foi a criação de um programa de renegociação de dívidas por meio da Caixa Econômica Federal, que chamou de “Banco da Prosperidade”. Segundo Flávio, a instituição compraria dívidas de pessoas físicas e empresas junto aos bancos, oferecendo condições mais favoráveis de pagamento.
O senador também prometeu suspender temporariamente o pagamento das dívidas renegociadas, por seis meses para pessoas físicas e por um ano para pessoas jurídicas. A medida, segundo ele, permitiria que consumidores e empresários recuperassem a capacidade de compra e investimento.
Lula respondeu afirmando que a proposta já faz parte das iniciativas de seu governo. O presidente citou os programas Desenrola e uma nova medida de renegociação de dívidas, que, segundo ele, prevê leilões com instituições financeiras para aquisição de débitos com descontos de até 95%.
“Ele está copiando uma coisa que eu já mandei para o Senado”, afirmou o petista, que também mencionou medidas anunciadas na reta final da campanha para beneficiar microempreendedores individuais (MEIs).
Os dois também divergiram sobre a dívida pública e a autonomia do Banco Central. Flávio defendeu a independência da autoridade monetária como mecanismo para evitar interferências políticas na definição dos juros. Lula, por sua vez, relacionou o crescimento da dívida ao patamar das taxas de juros e defendeu a expansão da economia como caminho para reduzir o endividamento em relação ao Produto Interno Bruto (PIB).
Salário mínimo e programas sociais
Outro embate ocorreu em torno da valorização do salário mínimo e dos benefícios previdenciários. Lula procurou associar as propostas econômicas do adversário ao modelo adotado pelo presidente argentino Javier Milei e questionou se Flávio garantiria reajustes acima da inflação para trabalhadores, aposentados e pensionistas.
Flávio respondeu que manterá aumentos reais do salário mínimo e das aposentadorias, negando a intenção de promover cortes nesses benefícios.
“Eu não vou fazer economia em cima dos mais pobres”, afirmou, ao criticar o que considera uma tentativa do petista de associá-lo à redução de direitos sociais.
Os candidatos também encontraram um ponto de convergência na proposta de tarifa zero no transporte público aos fins de semana. Questionado por Lula, Flávio se declarou favorável à gratuidade dos ônibus nesses dias, mas voltou a criticar a política tributária do governo.
Em outra rodada, o presidente cobrou explicações sobre o voto contrário de Flávio à ampliação da licença-maternidade quando era deputado estadual do Rio de Janeiro. O senador reconheceu ter errado e afirmou que, à época, acreditava que a medida poderia dificultar a contratação de mulheres.
“Eu estava errado. Hoje, depois que eu casei, depois que eu tenho duas filhas, mais do que nunca eu sei da importância da mãe estar perto do filho”, declarou, acrescentando que atualmente votaria de maneira diferente.
Lula criticou a mudança de posicionamento e questionou o adversário por ter chamado o Bolsa Família de “Bolsa Farelo”. Flávio não respondeu diretamente à pergunta, mas acusou o presidente de ter deixado os beneficiários sem reajuste durante boa parte do mandato e de anunciar um aumento apenas na reta final da campanha.
O senador prometeu manter e reajustar o Bolsa Família, além de estabelecer uma regra de transição para beneficiários que conseguirem emprego formal ou abrirem empresas, permitindo a continuidade temporária do pagamento.
Nordeste e infraestrutura
Pernambuco e o Nordeste também foram mencionados durante o debate. Lula destacou os investimentos de seus governos na região, citando a transposição do Rio São Francisco, a ferrovia Transnordestina, a expansão das universidades e dos institutos federais e a instalação de indústrias.
O presidente acusou Flávio de não demonstrar interesse pelo desenvolvimento nordestino e questionou quais projetos o senador apresentaria para a região.
“O que você vai fazer no Nordeste, já que você não gosta do Nordeste? A impressão que eu tenho é que você não gosta do Nordeste”, afirmou.
Flávio rebateu dizendo que “o Nordeste não é problema, o Nordeste é solução” e prometeu ser o “carioca mais nordestino” do país. O candidato afirmou que pretende governar em parceria com todos os governadores, independentemente das alianças partidárias, e mencionou a governadora reeleita de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD).
“Vai ser uma grande honra sentar com a governadora eleita Raquel Lyra para ajudar os nossos irmãos pernambucanos”, declarou, ao defender uma atuação conjunta no combate ao crime organizado e na execução de obras no estado.
O senador também prometeu concluir a Transnordestina, para ampliar o escoamento da produção pelos portos de Suape, em Pernambuco, e do Pecém, no Ceará. Outra proposta apresentada foi a construção de uma ferrovia de passageiros ligando as capitais nordestinas, de Salvador a São Luís.
Lula afirmou que a Transnordestina e outras ferrovias já recebem investimentos federais e contestou as críticas do adversário sobre a infraestrutura. Flávio, por sua vez, acusou o governo de acumular obras paralisadas e prometeu ampliar as concessões rodoviárias, com isenção de pedágio para motociclistas.
O debate sobre infraestrutura também alcançou o agronegócio e o saneamento básico. Flávio criticou as dificuldades de acesso ao crédito rural e defendeu a ampliação do seguro agrícola, enquanto Lula destacou investimentos e a abertura de mercados internacionais para produtos brasileiros.
Na discussão sobre o saneamento, o senador defendeu o marco legal aprovado durante o governo Jair Bolsonaro e cobrou avanços na universalização do abastecimento de água e do tratamento de esgoto. O presidente respondeu com críticas à política ambiental da gestão anterior e defendeu o potencial econômico da preservação da Amazônia.
SUS, educação e apostas
Na área da saúde, Lula questionou Flávio sobre a possibilidade de cortes nos investimentos do Sistema Único de Saúde (SUS). O presidente mencionou declarações atribuídas ao médico Claudio Lottenberg, apontado como possível ministro da Saúde em um eventual governo do senador, e cobrou garantias de manutenção do financiamento público.
Flávio respondeu que pretende ampliar os investimentos no SUS, mas criticou a gestão dos recursos, a demora para consultas e cirurgias e a situação financeira de hospitais filantrópicos. O candidato prometeu atualizar a tabela de procedimentos do sistema e renegociar dívidas das Santas Casas.
O confronto também trouxe referências à pandemia de Covid-19. Lula voltou a responsabilizar politicamente o governo Jair Bolsonaro pela condução da crise sanitária, criticando declarações do ex-presidente sobre a vacinação e a falta de oxigênio em Manaus. Flávio contestou as acusações e defendeu a atuação do pai durante a pandemia.
Na educação, Lula prometeu universalizar o ensino em tempo integral até o ensino médio e ampliar o Pé-de-Meia, inclusive para estudantes universitários. Flávio garantiu a manutenção do programa e apresentou propostas de auxílio-creche, formação técnica e ensino de novas tecnologias, como inteligência artificial, no contraturno escolar.
A recente proibição das plataformas de apostas também foi discutida. Lula defendeu a medida provisória editada em setembro que determinou o encerramento das operações das chamadas bets, argumentando que a atividade contribuiu para o endividamento das famílias.
Flávio acusou o presidente de ter permitido a expansão das apostas e de determinar a proibição apenas às vésperas das eleições. O senador também criticou os efeitos da medida sobre o patrocínio a clubes de futebol.
Segurança pública e troca de ofensas
A segurança pública voltou a colocar os candidatos em confronto direto. Flávio defendeu o endurecimento da legislação penal, a redução da maioridade penal e a classificação do Comando Vermelho, do Primeiro Comando da Capital (PCC) e das milícias como organizações narcoterroristas.
O senador propôs reduzir a maioridade penal para 16 anos, chegando a 14 anos em casos de estupro, além de estabelecer penas mais duras para crimes como furto de celular e aplicar castração química a condenados por crimes sexuais.
Lula respondeu defendendo a aprovação da PEC da Segurança Pública e a criação de um ministério específico para a área. O presidente prometeu fortalecer a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal e ampliar a participação do governo federal no enfrentamento ao crime organizado.
O petista também questionou a atuação de Flávio na defesa de um policial acusado de matar a menina Ana Clara Gomes Machado, de cinco anos, durante uma ação policial no Rio de Janeiro. A mãe da criança acompanhou o debate no estúdio.
Flávio prestou solidariedade à família, mas afirmou não acreditar que o policial defendido por ele tenha efetuado o disparo. Lula, por sua vez, mencionou o histórico político do senador no Rio de Janeiro e o acusou de manter relações com pessoas ligadas a milícias, o que Flávio negou.
Em outro momento, Lula reagiu à expressão “nove dedos”, utilizada pelo adversário para se referir à perda de um dedo em um acidente de trabalho. O presidente afirmou que não aceitaria a provocação, relembrou sua trajetória como metalúrgico e exigiu desculpas.
“Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos”, afirmou Lula. Flávio respondeu: “Se eu te ofendi porque eu te chamei de nove dedos, eu te peço desculpa, de verdade”.
Acusações sobre o Banco Master e patrimônio
No último bloco, dedicado a temas livres, o debate voltou a ser dominado por acusações pessoais e questionamentos sobre suspeitas de corrupção e patrimônio.
Lula iniciou a rodada cobrando explicações de Flávio sobre uma disputa envolvendo uma ilha em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, reivindicada pelo jogador Richarlison. O presidente questionou a relação do senador com o advogado Willer Tomaz, ligado à disputa pela propriedade, e levantou suspeitas sobre a atuação de um ex-dirigente da Secretaria do Patrimônio da União (SPU).
Flávio negou ter interferido no caso ou indicado o dirigente mencionado pelo presidente. Também afirmou que Willer é seu amigo, mas não seu sócio, e sustentou que a controvérsia sobre o imóvel já havia sido decidida pela Justiça.
A discussão avançou para o Banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro. Lula voltou a questionar a relação do adversário com o empresário e mencionou negociações envolvendo o financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro.
Flávio negou irregularidades na operação e afirmou que o projeto recebeu investimentos privados, sem utilização de recursos públicos. O senador, por sua vez, questionou Lula sobre um suposto presente de Vorcaro, uma garrafa de uísque avaliada em R$ 500 mil, e sobre alegações de repasses relacionados a uma produção audiovisual sobre o presidente.
Os candidatos também trocaram acusações envolvendo familiares, possíveis relações com o banqueiro e suspeitas de ocultação de patrimônio. Flávio mencionou investigações relacionadas a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, enquanto o presidente voltou a desafiar o senador a apresentar documentos sobre suas movimentações financeiras.
Lula afirmou que seus advogados já haviam apresentado documentação à Justiça Eleitoral e propôs que ambos abrissem suas contas bancárias para investigação. Flávio também declarou não ter nada a esconder, mas insistiu na cobrança pela divulgação de informações do cartão corporativo da Presidência e de registros mantidos sob sigilo.
Nas considerações finais, Flávio reiterou a promessa de recuperar o poder de compra da população e combater a criminalidade. Lula defendeu o legado de seus governos e afirmou que a eleição de domingo representa uma escolha sobre os rumos da democracia brasileira.
Os dois candidatos voltam a se enfrentar nas urnas neste domingo (25), quando os brasileiros escolherão o presidente da República para os próximos quatro anos.
Fonte: JC
Hoje Pernambuco Notícias a toda hora!

