Democracia está em alta

Democracia está em alta

A massificação do medo e do ódio em relação ao adversário chega aos últimos dias de campanha como estratégia preferida pelos dois lados da disputa no segundo turno presidencial. Os debates de propostas ficaram em segundo plano, enquanto casos sob investigação, trocas de mensagens vazadas e a transferência do acirramento político para as supremas cortes – o TSE e o STF – ganharam evidência. Mas nesse percurso em que aparentemente se fragiliza, a democracia pode ser vista como força ativa na complexa realidade brasileira, conferindo aos cidadãos, mais uma vez, até o próximo domingo, a oportunidade de comparação, reflexão e escolha do presidente da República pelos próximos quatros anos.
Vale registrar que a ameaça à democracia, tratada abertamente pelos militantes e lideranças das duas candidaturas, não foi assunto abordado nas principais sabatinas e no único debate no segundo turno até agora, na Band. E nesse caso, a não menção a qualquer sombra de ruptura totalitária não deixa de ser indício positivo. Melhor assim: que o medo disseminado não ache respaldo nos discursos oficiais da campanha, ao contrário do que se viu no governo anterior, de Jair Bolsonaro, quando o viés autoritário de declarações infelizes é que geraram o levante das instituições pela democracia.
O risco institucional continua sendo lembrado, por isso, como nas eleições passadas, em 2022, por entidades e nomes ligados à defesa do processo democrático. Esta semana, um evento na Universidade de São Paulo (USP) reuniu juristas, advogados, professores e ex-ministros do STF, além de personalidades de outras áreas, em um manifesto pela importância da democracia. Às vésperas do segundo turno, o documento ressaltou o valor da Constituição, da independência e equilíbrio entre os poderes da República e do Estado Democrático de Direito, bases sobre as quais se firmam a liberdade, a cidadania e a justiça.
Mais de 700 pessoas assinam o manifesto, que faz referência à crise no Judiciário, representando correntes políticas da direita, da esquerda e do centro. Em momento histórico de polarização exacerbada, o posicionamento em favor da democracia e dos direitos conquistados não se dirige a qualquer um dos dois concorrentes – nem contra um deles, especificamente. Alçados ao topo da corrida pelo poder no Planalto, Lula e Flávio Bolsonaro devem se comprometer com o processo democrático de que tomam parte. A defesa da democracia é um princípio comum que precisa unir os eleitores e as eleitoras de ambos, como o manifesto faz presumir. E a partir de janeiro de 2027, até dezembro de 2030, um dos dois será um dos principais responsáveis pela salvaguarda do texto constitucional e das garantias da democracia no país.
O Brasil conta com instituições firmes, mesmo com a cúpula do STF em corrosão. A mobilização pacífica nas ruas, a liberdade de manifestação, de oposição e de voto, o papel sempre relevante da imprensa e da opinião pública, a realização do primeiro turno sem contestações, com apuração dos resultados em poucas horas – tudo isso evidencia nossa vitalidade democrática. É assim que a população brasileira vai às urnas, mais uma vez, no domingo: protagonista e fiadora da democracia em alta.

Fonte: JC

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