Nara Roesler: cinco décadas de uma cartografia afetiva da arte brasileira

Nara Roesler: cinco décadas de uma cartografia afetiva da arte brasileira

Responsável por consolidar, de forma pioneira, e internacionalizar a arte contemporânea do Brasil, Nara Roesler é uma curadora que faz da intuição com cores e formas uma cartografia afetiva de linguagens e culturas.

Ao longo de cinco décadas, ela construiu pontes entre artistas e circuitos, projetando a arte contemporânea brasileira para além de suas fronteiras.

Neste ano, a galerista celebra 50 anos de atuação, tendo o Recife como ponto de partida de uma história dedicada à arte e à comunidade artística. Foi a partir de Pernambuco que Roesler começou a abrir caminhos para a produção local, contribuindo para ampliar sua visibilidade e inserção no cenário internacional.

Fora do eixo Rio-São Paulo, a arte pernambucana encontrou novas possibilidades de circulação. Em suas múltiplas linguagens, a produção do estado passou a ocupar espaços de destaque no circuito contemporâneo, levando ao mundo expressões que atravessam a cultura popular, a memória e as transformações sociais.

Roesler conecta a produção artística de Pernambuco e do Brasil ao circuito global, apresentando novas linguagens e perspectivas ao público internacional. A galerista foi a primeira a estabelecer uma galeria brasileira em Nova York, levando diferentes visões de mundo latino-americanas para outro país.

O grupo de artistas representados pela Galeria Nara Roesler abrange diferentes gerações, pesquisas e suportes. Entre os brasileiros consagrados estão Abraham Palatnik, Antonio Dias, Tomie Ohtake e Vik Muniz. O conjunto também reúne artistas estrangeiros, como Julio Le Parc, Daniel Buren e Dan Graham.

Completam o time nomes consolidados da arte contemporânea, como Artur Lescher, Carlito Carvalhosa, Cristina Canale, José Patrício, Laura Vinci, Lucia Koch, Paulo Bruscky e Raul Mourão.

“São vozes que souberam construir linguagens únicas e relevantes dentro do contexto contemporâneo”, afirma a galerista.

Arte pernambucana abre caminho

Nara Roesler nos anos 1970 no Recife, onde iniciou seus trabalhos como galerista – Acervo Nara Roesler

O interesse de Nara Roesler pela arte nasceu do convívio com o ambiente intelectual e colecionista de sua família. Em 21 de outubro de 1976, ela realizou sua primeira exposição como galerista, dedicada à produção recifense.

Intitulada “O desenho em Pernambuco”, a mostra foi organizada em parceria com o Escritório de Arte Renato Magalhães Gouvêa, de São Paulo, e reuniu obras de artistas como Aloisio Magalhães, Francisco Brennand, Guita Charifker e Lula Cardoso Ayres.

Design moderno, cerâmica, gravura e vanguarda compunham um panorama da produção artística do estado.

Dez anos depois, em 1986, Roesler se mudou para São Paulo, onde passou a integrar a Montesanti Galleria. Durante três anos, o espaço adotou o nome Montesanti Roesler. Em 1993, a galeria assumiu a denominação Nara Roesler, consolidando sua identidade própria.

Novos territórios para a arte brasileira

Nara Roesler coloca a arte pernambucana e brasileira no circuito global – Divulgação

A expansão também levou a galeria a outros centros artísticos, com espaços no Rio de Janeiro e em Nova York. A atuação internacional marcou uma nova etapa do projeto, que passou a conectar de maneira mais direta a produção brasileira ao circuito global. A galeria foi a primeira brasileira a estabelecer uma unidade em Nova York.

Em 2004, Roesler criou o Roesler Hotel, programa voltado ao intercâmbio entre artistas e curadores brasileiros e estrangeiros, ampliando o diálogo entre a produção artística e a reflexão crítica.

Em 2011, fundou a Nara Roesler Books, apresentada como a primeira editora criada por uma galeria de arte contemporânea, que já reúne mais de 30 títulos publicados. Desde 2019, a direção artística da galeria está sob responsabilidade do venezuelano Luis Pérez-Oramas.

“Nara Roesler traçou uma cartografia simbólica: é o mapa de quem sabe tornar possível o impossível, de quem sabe transformar a periferia em centro e desafiar os centros. É a trajetória de uma galerista que não cessou de despertar a memória de artistas que poderiam ter sido injustamente esquecidos e de revelar novos, promissores e impactantes talentos”, afirma Pérez-Oramas.

Cinco décadas revisitadas

Galerista Nara Roesler celebra cinco décadas de trajetória na arte contemporânea brasileira – Fabio Audi/Divulgação

Para celebrar os 50 anos de atuação de sua fundadora, a galeria organizou, em conjunto com o diretor artístico, um calendário de exposições coletivas nas três sedes. As mostras revisitam temas importantes dessa trajetória e destacam artistas que marcaram a história do espaço.

A programação terá curadoria de Moacir dos Anjos, Agnaldo Farias, Magali Arriola, Vik Muniz, Ariel Jimenez e Bernardo Mosqueira.

Segundo Pérez-Oramas, cada exposição abordará um aspecto central da trajetória de Roesler, desde o diálogo entre os centros artísticos do eixo Rio-São Paulo até a valorização de criadores do Nordeste, passando pela arte moderna brasileira e pelo compromisso com a descoberta de novos artistas.

A galeria participa, ainda, da 5ª edição da ART.PE, que acontece até domingo (18) e reúne 75 expositores, entre galerias brasileiras e internacionais, projetos especiais, instituições culturais, editoras e livrarias, no Recife Expo Center, na área central da cidade.

Fonte: JC

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