O Datafolha confirma o alerta da Quaest do dia anterior. A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) errou a mão ao agir como se a eleição já estivesse vencida e agora vê sua vantagem diminuir sem que Lula (PT) precise crescer.
O senador passou de 49% para 47%, enquanto o presidente permaneceu com 45%. A distância caiu pela metade em uma semana. Nos votos válidos, o placar de 52% a 48% virou 51% a 49%. Faltando dez dias para a votação, há pouco espaço para a arrogância de quem , nos bastidores, já estava discutindo funções no próximo governo.
Tração
O resultado do primeiro turno autorizava otimismo. A campanha e os aliados resolveram transformá-lo em licença para antecipar a vitória. Vieram declarações sobre mudanças institucionais, intervenções da família sobre o futuro governo e uma sucessão de movimentos que colocaram em dúvida a previsibilidade do candidato. A confusão sobre participar dos debates e as posições sobre o fim da escala 6×1 ajudam a transmitir uma impressão de improviso justamente quando Flávio precisava oferecer segurança.
O eleitor que pode decidir essa disputa está cansado do governo Lula, mas também deseja estabilidade. Sua insatisfação com o presidente não representa autorização para qualquer aventura. Se começa a desconfiar da alternativa, pode hesitar antes de escolher o outro lado. No Datafolha, brancos, nulos e indecisos passaram, juntos, de 6% para 8%. Não é possível rastrear individualmente esses votos, mas o quadro combina com uma campanha que perde tração sem produzir crescimento nacional do adversário.
Evangélicos
Entre os evangélicos, o aviso é mais forte. Flávio passou de 69% para 62%, enquanto Lula oscilou de 25% para 29%. A vantagem do senador continua muito ampla, mas diminuiu de 44 para 33 pontos. Ele perdeu 11 pontos da vantagem que tinha. Qualquer campanha minimamente atenta deveria olhar com cuidado para uma oscilação desse tamanho numa base tão importante.
Lula acenou a esse eleitorado com uma carta nesta semana, tentando diminuir resistências e abrir espaço onde o bolsonarismo costuma dominar. A pesquisa não permite atribuir o movimento à iniciativa, mas mostra por que vale disputar esses votos. A vantagem ainda é grande, mas Flávio não precisa perder a maioria entre os evangélicos para comprometer a eleição. Basta que uma parcela deixe de apoiá-lo para que a conta nacional fique mais difícil. Numa disputa de 47% a 45%, até uma base muito favorável precisa ser convencida a continuar favorável.
Regiões
No Nordeste, Lula ampliou sua vantagem sem subir um único ponto. Permaneceu com 61%, enquanto Flávio caiu de 35% para 32%. A distância aumentou de 26 para 29 pontos. É a expressão regional mais clara do que aconteceu nacionalmente. O presidente ganhou proximidade com a vitória porque o adversário recuou. No Sul, houve uma alteração menor, com Flávio passando de 58% para 57% e Lula mantendo 35%. A ampla vantagem do senador foi preservada.
O Sudeste é a região que oferece esperança a Flávio. Na região mais populosa do país, ele passou de 50% para 51%, enquanto Lula oscilou de 42% para 41%. São movimentos pequenos, num quadro de estabilidade, mas a distância numericamente maior ajuda o candidato do PL porque o maior volume do eleitorado está ali.
Há, porém, uma tarefa que o entusiasmo não pode esconder. Com as disputas estaduais encerradas no primeiro turno na região, será necessário manter eleitores e estruturas locais mobilizados. Uma eventual desmobilização, se o povo resolver ir à praia, por exemplo, pode atingir justamente a vantagem da qual Bolsonaro depende.
Debates
A rejeição também mostra os limites dos dois candidatos. Lula permaneceu com 46% dos entrevistados dizendo que não votam nele, enquanto Flávio oscilou de 43% para 44%. O presidente ficou mais perto sem melhorar a própria aceitação. O senador perdeu intenção de voto e teve uma pequena alta na resistência ao seu nome. As oscilações estão dentro da margem de erro, mas o conjunto recomenda que a campanha de Flávio desça do salto. Também recomenda ao PT alguma cautela antes de anunciar uma recuperação que ainda não apareceu nos 45% de Lula.
Os debates deste próximo domingo (18) e da próxima quinta-feira (22) serão decisivos para trabalhar essas rejeições. Lula terá de oferecer razões para conquistar quem continua resistindo a outro mandato seu. Flávio precisará transmitir a ideia de que seu governo pode ser minimamente estável, inclusive diante das ambições da própria família. O eleitor que deseja mudança quer saber o que receberá junto com ela. E Lula ainda precisa explicar o que pretende mudar num governo que já é dele. Porque muita coisa precisa mudar.
Fonte: JC
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