Cidades mais vulneráveis

Cidades mais vulneráveis

As cenas de pânico na maior cidade brasileira deram um exemplo de como continua faltando preparo, no país, ao enfrentamento e convivência com o que chamamos de crise climática – mas que pode se prolongar indefinidamente, sem caber na qualificação de crise. O que o fenômeno El Niño intensifica, segundo especialistas, pode ser apenas o início de um longo período de adaptação da vida no planeta à nova configuração do clima. O que se viu e se sentiu em São Paulo, na última quarta-feira, foi uma amostra da desordenação urbana a que estão sujeitos os municípios no Brasil durante uma tempestade. E não importa o tamanho da cidade, os estragos podem ser grandes, proporcionais à população atingida, e com altos riscos cada vez mais evidentes.
Sem condições estruturais para minimizar as consequências das chuvas fortes, nem planos de contingência formatados para conter os danos e poupar as pessoas de transtornos, prejuízos e até do risco de morte, nossas cidades não apresentam ainda a gestão necessária à condução de planejamento e das medidas esperadas, relacionadas às mudanças climáticas. Como se o clima estivesse se transformando em outro mundo, outra realidade bem distante. Quando os túneis e as estações alagam, as ruas viram rios, animais e humanos ficam ilhados ou são soterrados, em São Paulo, no Recife ou em qualquer cidade brasileira, os gestores públicos costumam exibir espanto, com a quantidade de água vinda em tão pouco tempo – como sempre vem. E parecem acordar de um período longo de hibernação, como se jamais fossem capazes de imaginar que a chuva causasse tantos problemas.
Talvez não seja questão tratada com a seriedade merecida à precaução. Há décadas, os cientistas vêm alertando o poder público em todo o mundo a respeito da instabilidade gerada pelo aumento da temperatura média na Terra, sobretudo nos oceanos, cujo calor no Pacífico provoca o El Niño. Raros têm sido os movimentos efetivos de adaptação à nova realidade, entretanto. No Brasil, a ocupação desordenada de morros e beiras de rios, ao longo das últimas décadas do século passado, formou um ambiente propício aos desastres em decorrência de chuvas – e mesmo assim, ano após ano, as tragédias evitáveis se repetem, cada vez em maior escala de risco e prejuízos, como se fosse a primeira vez, toda vez,
A situação se torna preocupante no Nordeste, onde às alterações do clima se atrelam condições de enfrentamento longe de ideais, com restrições financeiras e dificuldades estruturais históricas. Além das chuvas fortes que tendem a ser mais frequentes, as estimativas apontam períodos longos de calor, com temperaturas acima da média e a possibilidade de secas severas, reverberando na agropecuária, na economia como um todo e no cotidiano das populações. A realidade da falta de água, tão presente na cultura e tristemente atual, é uma ameaça concreta aos nordestinos, diante das mudanças climáticas em curso. Nos centros urbanos, notadamente nos polos de regiões metropolitanas, como Recife, a perspectiva se agrava no risco para as periferias, já castigadas pela omissão pública em tempo bom e firme, muito mais vulneráveis sob o pesadelo de um pé d’água ou da quentura escaldante.

Fonte: JC

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