“Deus criou o ano eleitoral para salvar as cidades”

Dizem que Deus descansa no sétimo dia. Já a política brasileira descansa três anos e trabalha com fervor no quarto. É no ano eleitoral que acontece o milagre. As cidades, até então esquecidas, são subitamente tocadas pela graça divina da gestão pública. O asfalto brota onde antes havia buraco, a praça ganha tinta fresca, a obra abandonada ressuscita — ainda que sem portas, sem acabamento ou sem utilidade prática. Mas ressuscita. Aleluia!

A eleição é, sem dúvida, o maior evento sobrenatural das cidades brasileiras. Durante meses, prefeitos descobrem ruas que nunca tinham visto, secretários se emocionam com bairros “históricos” que jamais visitaram e máquinas aparecem como se sempre estivessem ali, apenas esperando o tempo certo… o tempo do voto. É o milagre da multiplicação das obras — ainda que falte cimento, prazo e qualidade.

Nada explica melhor a fé política do que a obra pela metade. Metade da rua asfaltada, metade da praça reformada, metade da creche entregue. O milagre acontece, mas é parcial. Talvez por economia divina. Talvez porque o importante não seja resolver, mas mostrar. Não se cura o problema — apenas se alivia a dor até o dia da eleição. Depois, o paciente que espere o próximo ciclo de fé.

E assim seguimos: cidades salvas temporariamente pelo calendário eleitoral. O que não foi feito em três anos vira urgência em três meses. O planejamento dá lugar à pressa, o projeto cede espaço à foto, e a política pública se transforma em cenário. São as gestões do improviso ungida pela propaganda.

O mais curioso é que, terminado o período eleitoral, o milagre se dissipa. As máquinas somem, as obras desaceleram, os problemas retornam com a força de quem nunca foi realmente enfrentado. Alagamentos reaparecem, buracos voltam, serviços falham. Mas não há pecado: afinal, a próxima eleição já está prometida. E com ela, um novo milagre.

Talvez seja por isso que as cidades não se desenvolvem de verdade. Vivem de intervenções episódicas, não de políticas contínuas. Governadas mais pela liturgia do voto do que pela lógica do planejamento. Ano após ano, eleição após eleição, a cidade é “salva” — mas nunca curada.

No fim das contas, não falta recurso, nem técnica. Falta constância. Falta tratar a cidade como um projeto permanente, e não como um altar montado às pressas de quatro em quatro anos. Até lá, seguimos acreditando. Porque, se tem eleição, tem obra. Mesmo que seja um milagre mal acabado.

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