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Mandetta impõe desgaste a Bolsonaro na CPI da Covid-19, mas é Teich quem pode emparedar Planalto

O ex-ministro da Saúde do Brasil, Luiz Henrique Mandetta, durante sessão da CPI no Senado.

Por Beatriz Jucá/El País

A estreia dos depoimentos dos ex-ministros da Saúde na CPI da covid-19 provocou um impacto negativo ao Governo Bolsonaro já esperado, mas não trouxe novos trunfos apresentados pelo primeiro a ser ouvido pelos senadores, Luiz Henrique Mandetta. O médico, que tenta construir uma candidatura ao Planalto e foi demitido por discordâncias com o presidente sobre o isolamento social, blindou-se com uma carta na qual cobrava, em março de 2020, que o presidente mudasse sua conduta no enfrentamento da pandemia sob o risco de “gerar colapso do sistema de saúde e gravíssimas consequências à saúde da população brasileira”. Afirmou que Bolsonaro não seguia as orientações técnicas do ministério e tinha uma “assessoria paralela”, da qual participava seu filho e estrategista digital Carlos Bolsonaro. Expôs ainda ter visto uma minuta para incluir a covid-19 na bula da cloroquina ―um medicamento sem eficácia― por uma canetada via decreto presidencial, mas disse desconhecer de quem foi à autoria e que a proposta não prosperou.

Ao desgaste provocado por Mandetta ao reforçar a postura negacionista de Bolsonaro durante a maior crise sanitária dos últimos 100 anos, soma-se o adiamento do aguardado depoimento do ex-ministro e general Eduardo Pazuello desta quarta-feira (05) para o próximo dia 19 de maio. Se, num primeiro momento, a postergação poderia aliviar o Planalto de uma semana de embates na CPI, a oposição espera com isso ganhar tempo para fazer acareações e sabatinar o ex-ministro.

O general Pazuello cancelou sua ida à CPI porque teria tido contato com dois militares diagnosticados com covid-19 no fim de semana. Espera-se que ele preste esclarecimentos sobre veias centrais da investigação do Senado: a demora do Governo para comprar vacinas e a suposta omissão na crise de oxigênio em Manaus. Pazuello foi o ministro que passou mais tempo à frente da Saúde durante a pandemia e tem sido orientado pelo Planalto sobre como depor aos senadores. Deu como opções ser indagado por videochamada ou adiar o depoimento, mas o presidente da comissão, Omar Aziz, optou pelo adiamento. A análise do Planalto, porém, pendia para a participação remota após a injeção de ânimo dada pelas manifestações bolsonaristas no fim de semana. A participação do ex-ministro Nelson Teich, adiada desta terça para a manhã de quarta-feira (05), também preocupa o Governo. Ele deverá esclarecer se as primeiras ofertas de imunizantes por laboratórios ocorreram durante a sua gestão relâmpago de um mês na pasta. Teich teria deixado o cargo por discordância sobre o protocolo da cloroquina. Especialistas têm avaliado que o Brasil perdeu o timing para efetivar contratos, e a vacinação é a principal demanda da sociedade, do mercado e da classe política neste momento.

Durante mais de sete horas, Mandetta falou a senadores e disse ter a impressão de que o Governo Bolsonaro apostava na teoria da imunidade de rebanho ―que supõe a proteção de uma comunidade quando um percentual da população já tem anticorpos― para superar a pandemia. Enfrentou questionamentos mais agressivos dos governistas, que adotaram a estratégia de tentar responsabilizá-lo por não ter cancelado o Carnaval de 2020 e pela orientação de que as pessoas só buscassem os hospitais somente após apresentar sintomas respiratórios como falta de ar, o que ex-ministro chamou de “guerra de narrativas”. Apoiadores do presidente também tentavam descolar a imagem de Bolsonaro de temas mais polêmicos, como o estímulo ao uso da cloroquina. Tentavam colocar o medicamento como outro qualquer e defender que médicos ao redor do mundo usavam medicamentos sem a indicação em bula contra a covid-19. Equilibravam-se em uma linha tênue entre a tentativa de responsabilizar o ex-ministro e o papel de livrar Bolsonaro. Do outro lado, Mandetta defendia-se como podia. Sem apresentar novos trunfos, ofereceu um discurso limitado diante do risco de ele mesmo se comprometer. Evitou subir o tom, mas não poupou críticas. E afirmou reiteradas vezes que sempre seguiu a ciência e as orientações da OMS.

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