Percentual de endividados cresce em janeiro

  • Por Rafael Ramos, economista da Fecomércio PE

O percentual de endividados, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) pernambucano, voltou a mostrar movimento na mesma direção do nacional e cresceu, em dezembro, após recuo verificado no último mês de 2020.

O percentual de famílias endividadas atingiu os 78,1%, ante 76,7% do mês de dezembro. Esse é o maior percentual de endividados para os meses de janeiro, desde 2010, quando foi iniciada a série da pesquisa. Os números apontam para uma entrada de ano em maior dificuldade, além de sinalizar que as famílias de fato podem ter uma ressaca de consumo dentro do comércio também devido à alta do endividamento.

É importante destacar que o movimento de alta já  era esperado, visto que o último mês do ano traz incentivos para um maior nível de consumo, devido a comemorações como o Natal e o Ano Novo, além de coincidir com o pagamento da segunda parcela do décimo terceiro salário. Diante dos maiores gastos, o orçamento familiar fica mais comprometido em janeiro, somando outras questões restritivas como a compra do material escolar, reajustes em parte dos serviços, pagamentos de impostos e uma fatura já elevada dos meses anteriores.

Essa conjuntura acaba criando um cenário de renda disponível em proporção bem menor que em outros meses, criando incentivos para que parte das famílias continue consumindo através de financiamento, como a utilização do crédito para as compras que não estão mais cabendo no atual orçamento.

O ano já se inicia conforme o esperado, com maiores restrições orçamentárias devido à queda no rendimento. Vale destacar que programas de distribuição de renda, a exemplo do auxílio emergencial, que estavam disponíveis para parte da população e que contribuíram de maneira significativa para a manutenção do consumo, foram encerrados em dezembro de 2020.

A retirada desses recursos do orçamento dos mais vulneráveis e da população na informalidade acaba incentivando o uso de financiamento para manter o padrão de consumo adquirido nos meses de pandemia. Além disso, parte das famílias que recebe o auxílio já compraram a prazo e agora com o fim do programa o endividamento pode ser levado para níveis mais críticos.

Outro ponto importante a ser destacado na elevação do endividamento é o aumento da desocupação que ocorre de maneira sazonal em janeiro. Os contratos temporários gerados através de uma maior demanda de consumo, no último trimestre, apresentam o maior pico de encerramento de contratos em janeiro.

Além disso, o primeiro trimestre do ano coincide com a finalização de safras importantes como a da cana-de-açúcar, o que acaba contribuindo para a redução do número de empregos pela agricultura e consequentemente reduzindo a renda e a capacidade de pagamento das dívidas.

Em números, o percentual de 78,1% equivale a 402.535 famílias endividadas, aumento de 7.048 lares em um mês. Já em relação ao mesmo período de 2020, houve uma alta de 31.858 famílias. As famílias que possuem contas em atraso atingiram os 29,3%, alta em relação a dezembro e queda modesta quando comparado a janeiro do ano anterior, que registraram percentual de 28,0% e 29,4%, respectivamente.

O movimento é negativo e esperado, pois o percentual de famílias nesta situação voltou a apresentar deterioração, comprovando a importância da distribuição de renda, dos empregos temporários e do décimo terceiro salário para o controle do endividamento das famílias, principalmente daquelas que já apresentam algum tipo de descontrole em relação às suas dívidas durante o ano crítico de 2020.

Já a parcela da população com a situação mais crítica, que é aquela que informa não ter mais condições de pagar suas dívidas, mostrou percentual de 11,9%, o que corresponde a 61.170 mil famílias inadimplentes. E, como no grupo anterior, este grupo apresentou a primeira alta, após duas quedas consecutivas no número de famílias nesta situação, com alta mensal de 6.779 lares. Já na comparação anual, o percentual de famílias inadimplentes mostrou leve queda com diferença de 248 lares.

Quando se analisa o resultado por tipo de dívida, verifica-se que o tipo mais apontado continua sendo o cartão de crédito, atingindo 93,9%, apresentando queda quando comparado a dezembro, onde o percentual era de 95%, seguido pelo endividamento com carnês, que representa 17,2%, ante 22,1% do mês anterior, o que reflete a continuidade do movimento de desaceleração do consumo daqueles que estão sem acessar créditos mais baratos como o cartão de crédito. A maioria das famílias endividadas (57,4%) informa também que as dívidas comprometem entre 11% e 50% da renda, o comprometimento médio em janeiro de 2021 atingiu 29,0% da renda.

Para o mês de fevereiro, espera-se uma continuidade da elevação do endividamento, visto que o mês continuará apresentando maiores restrição do orçamento, como o pagamento de impostos, reajuste dos serviços e compra de material escolar.

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