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O PROCESSO DE EDUCAÇÃO E ENSINO NA IDADE MODERNA. EPISÓDIO DE HOJE: O Renascimento e sua influência no processo educativo e de ensino (Parte 6).

Direto de Brasília-DF.

Tendo em mente que o humanismo da Idade Moderna renasce com Dante, Petrarca e Boccaccio, como vimos dizendo, procure sempre recordar que sua primeira variação, o humanismo cívico, surge com o escritor Pedro Paulo Vergério, e sua obra “Sobre a Educação do Cavalheiro”, dedicada ao Príncipe da cidade de Pádua, na Itália.

Os vários escritos que surgiram nessa época abririam caminho para o mais famoso livro do humanismo cívico, “O Príncipe” de Nicolau Maquiavel. É bom, também, saber que apesar de a busca do humanismo cívico ser pelo “bom cidadão”, os escritos da época enfatizavam que todos os cidadãos deviam obediência irrestrita aos príncipes que governavam as cidades. Afinal, eles eram superiores em tudo a seus governados, razão porque havia sido posto sobre eles. Os deveriam ser o exemplo a ser seguido, mas também a ser temido.

Durante o humanismo cívico o programa educacional de Vergério, em verdade, não passava do resgate do programa educacional de Quintiliano, sobre o qual tanto já falamos em artigos anteriores. De certa foram, a História parece ser cíclica e o que foi acaba por voltar a ser, até que outra vez caia em desuso.

Vergério traçou o papel do processo educacional e de ensino desde a infância até os estudos superiores. Ele organizou e sistematizou o processo de educação e ensino nos padrões de Quintiliano, mas também nos padrões aristotélicos, pois os pilares do sistema eram a família, o mestre, o aluno e o conteúdo programático.

Os mestres deveriam ser sábios, escolhidos muito criteriosamente já que não tinham como função despertar conhecimento pré-existente na cabeça do aluno, como ensinavam Platão e Santo Agostinho. O mestre deveria ser um facilitador, um provocador de discussões, um estimulador da curiosidade de seus alunos.

Quanto ao conteúdo programático cada matéria deveria ser introduzida em pequenas dosagens e o professor não podia avançar ao conteúdo posterior antes que o conteúdo anterior estivesse dominado pelos alunos. Deveria promover e supervisionar debates entre os alunos, revisões constantes e nomear alunos como monitores para exporem o aprendizado.

Quanto aos alunos, estes deveriam ter disciplina moral e ser moderados em todos os seus comportamentos como não consumir bebida alcóolica nem comer demais. Deveriam reverenciar os idosos, os costumes e tradições da sociedade culta. Os castigos físicos não eram mais aceitos, mas aluno não ia para a escola fumar entorpecente nem tampouco desafiar o professor. O aluno deveria desafiar a si mesmo todos os dias e não tinha essa estória de aluno ruim passar de ano.

Aluno ruim era castigado ao estilo de cada família e na escola não ficava. Na escola Renascentista não havia espaço para aluno medíocre. Não se vitimizava quem não prestava ou vivia na miséria, porque a consciência reinante era a de que o ser humano é capaz para produzir as causas e efeitos que a razão e o livre arbítrio nos impõem. Essas Lições eram todas ensinadas aos alunos, que cresciam com a consciência de que eram responsáveis pelo seu próprio destino. Eis porque não se aceitavam “coitadinhos” na escola nem na sociedade.

Sobre os estudos de nível superior

Nos estudos de nível superior os alunos dedicavam-se à Ginástica, Eloquência, História, Filosofia Moral e eram instruídos a cultivar, acima de tudo, a virtude cívica. Afinal, eram preparados para serem “bons cidadãos” e servir à cidade e a seus Príncipes. Esta ideia se solidificará de vez no século XVIII, mas o Quatrocento resgata a ideia democrática clássica grega, que a natureza do homem é ser cidadão, é pertencer à cidade e a ela servir.

É por isto, também, que hoje todos somos de alguma forma e em alguma medida “prisioneiros” do Estado e de suas leis, pois como dizia o filósofo e escritor Jean Jacques Rousseau, em seu livro O Contrato Social, para onde formos estaremos de alguma forma acorrentados.

Todo esse entusiasmo do humanismo cívico, com a redescoberta em 1415 da obra “Institutio Oratoria de Quintiliano” (já abordamos em artigos anteriores), produziu na Igreja o medo de que o humanismo cívico fosse mais uma doutrina pagã, e que sua missão fosse “matar Deus”, como pensavam os críticos cristãos. Todavia, havia dentro da Igreja defensores da Renascença e do humanismo cívico, como São Basílio, que ensinava que todo o processo se parecia com o trabalho da abelha que visita diferentes flores para colher o néctar de cada diferente espécie para ao fim formar o mel como produto único, e bom.

Não sou autoridade em São Basílio, mas teorizo que sua defesa do humanismo poderia estar fundada nos escritos paulinos, pois na Epístola aos Tessalonicenses, 5:21, o apóstolo Paulo nos dá uma Lição que deveria ser aplicada a tudo em nossas vidas, quando diz: “ponde tudo à prova. Retende o que é bom” ou, “examinai todas as evidências, retende o que é bom”, como dito na versão da bíblia King James. Eis aí uma declaração que privilegia o racionalismo crítico-lógico aristotélico, pois induz cada um de nós a examinar e criticar o conteúdo das informações que nos chegam e filtrá-las em nossa razão. Afinal, não é para isto que a razão se presta?

 

Continua…

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